terça-feira, setembro 21, 2004


"O homem vulgar, por mais dura que lhe seja a vida, tem ao menos a felicidade de a não pensar. Viver a vida decorrentemente, exteriormente, como um gato ou um cão – assim fazem os homens gerais, e assim se deve viver a vida para que possa contar a satisfação do gato e do cão.
Pensar é destruir. O próprio processo do pensamento o indica para o mesmo pensamento, porque pensar é decompor. Se os homens soubessem meditar no mistério da vida, se soubessem sentir as mil complexidades que espiam a alma em cada pormenor da acção, não agiriam nunca, não viveriam até. Matar-se-iam de assustados, como os que se suicidam para não ser guilhotinados no dia seguinte."
Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego

1 comentário:

Isabel disse...

Concordo com Pessoa. A verdade é que a vida é tão complicada que era muito mais fácil não a viver. Aposto que não sou a única que já quis voltar a ser pequenina, para ter os pais para nos tratarem dos problemas todos, que nem eram muitos... Mas, a sorte é que "as pessoas não pensam!" Não se preocupem, não fui eu que disse isto, foi uma das filhas do duque de Malborough. Era verdade no sec. XVIII e ainda é mais verdade hoje.
Às vezes é melhor viver a vida do que pensar muito nela, é verdade. Senão, possivelmente, nem iamos em frente com metade dos projectos que temos. Mas... pessoal, também não fazia mal demorar mais de dez segundos a pensar, antes de tomar decisões que podem afectar a nossa vida e a de outras pessoas.