segunda-feira, setembro 27, 2004

"Olhe para um lugar onde tenha muita gente: uma praia num domingo de 40º, uma estação de metrô, a rua principal do centro da cidade. Metade deste povaréu sofre de Dor de Cotovelo.Alguns trazem dores recentes, outros trazem uma dor de estimação, mas o certo é que grande parte desses rostos anônimos tem um Amor Mal resolvido, uma paixão que não se evaporou completamente, mesmo que já estejam em outra relação. Por que isso acontece?Tenho uma teoria, ainda que eu seja tudo, menos teórico no assunto.Acho que as pessoas não gastam seu amor. Isso mesmo. Os amores que ficam nos assombrando não foram amores consumidos até o fim. Você sabe, o amor acaba. É mentira dizer que Não.Uns acabam cedo, outros levam 10 ou 20 anos para terminar, talvez até mais.Mas um dia acaba e se transforma em outra coisa: lembranças, amizade, parceira, parentesco, e essa transição não é dolorida se o amor for devorado até o fim.Dor de Cotovelo é quando o amor é interrompido antes que se esgote.O amor tem que ser vivenciado.Platonismo funciona em novela, mas na vida real demanda muita energia sem falar do tempo que ninguém tem para esperar. E tem que ser vivido em sua totalidade.É preciso passar por todas etapas: atração-paixão-amor-convivência-amizade-tédio-fim.Como já foi dito, este trajeto do amor pode ser percorrido em algumas semanas ou durar muitos anos, mas é importante que transcorra de ponta a ponta, senão sobra lugar para fantasias, idealizações, enfim, tudo aquilo que nos empaca a vida e nos impede de estarmos abertos para novos amores.Se o amor foi interrompido sem ter atingido o fundo do pote, ficamos imaginando as múltiplas possibilidades de continuidade, tudo o que a gente poderia ter dito e não disse, feito e não fez.Gaste seu amor. Usufrua-o até o fim. Enfrente os bons e maus momentos, passe por tudo que tiver que passar, não se economize.Sinta todos os sabores que o amor tem, desde o adocicado do início até o amargo do fim, mas não saia da história na metade.Amores precisam dar a volta ao redor de si mesmo, fechando o próprio ciclo.Isso é que libera a gente para Ser Feliz Novamente."
Arnaldo Jabôr

1 comentário:

Eduardo disse...

Concordo realmente com as sucessivas fases que o autor enumera para descrever o ciclo do amor. Todos nós vemos todos os dias os casais à nossa volta, aquela geração mais velha da idade dos nossos pais, que têm a sua relação oficializada - são casados e assim - mas vemos que daquilo não resta senão o companheirismo. Para muitos é melhor do que nada, e sabem que não é mudando de vida que vão começar tudo de novo. Já não há forças e seria atirar muita coisa para trás (os filhos mudam muito as coisas...). Mas não acredito que a maioria dessas relações cheguem ao tédio. O amor simplesmente desaparece, mas fica a empatia por aquela pessoa que nos acompanhou durante todos estes anos. Vemos isso a toda a nossa volta e são a maioria do que chamamos as relações estáveis. Mas isso não é dramático, pois dispensa-se a necessidade de amar pela companhia feliz. Vemos muitas vezes isso, mesmo antes de assinarem contratos vitalícios (vulgo casamentos e assim). É a estabilidade, sem pensarem que a estabilidade acaba por desvanescer as coisas. É a necessidade de ponto de apoio que depois se torna em planície de desinteresse. Devem estar à espera que eu diga agora alguma receita para vencer isto... Pois é, não sei, nem sequer vou dar ideias ridículas. Um tipo quando acaba a quarta classe não sabe se quer ir para a universidade, e como, portanto... Mas uma coisa penso que não é o esperado à maioria das pessoas, que é a capacidade de inovação. Por vezes ouço dizer: "Preciso de uma relação para assentar...". Sobretudo porque querem parar, abrandar o ritmo, bla bla. Mas o que se calhar não pensam é que, para alimentar uma relação é preciso inovar. Não o casal, mas nós próprios em particular. Penso que se não continuarmos a crescer como pessoas, para que serve uma relação. E esse crescer como pessoas deve ser também na individualidade, para que o casal possa crescer com o desenvolvimento de uma das partes. É o contributo de um ao outro. Pode o crescer como pessoas levar a que os caminhos se separem. É um risco. Penso também que risco é arriscar na estagnação, portanto, risco por risco... Inovarmo-nos como pessoas significa arranjar continuamente novas razões para que o nosso parceiro nos descubra a cada dia, e vá encontrando razões para dizer que aquele contrato afectivo valeu a pena. É arriscado, mas se calhar vale a pena. Se a vida a solo tem a particularidade de deixar o futuro em aberto, a vida em conjunto, também pode ter. Digo particularidade, pois pode ser algo positivo ou não. Decidam-se.
Quanto ao facto dos amores terem de seguir aquele caminho todo que o autor descreveu, penso que fica à vontade dos protagonistas optar se vale a pena fazê-lo, ou acabá-lo nos seus momentous áureos. Naturalmente, sem dor de cotovelo, como muitas outras coisas da vida, em que hoje estamos aqui e amanhã não sei onde, mas o que interessa é tudo o que se passou e nos ajudou a crescer. Sem dor de cotovelo. Mas é como vos digo: falar é fácil. Opinar em blogs toda a gente consegue fazer. Relações assim, é outra coisa...